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Dia dos Pais

Postado em 17 de agosto de 2019.

Recentemente li o artigo “Gestação, Parto e Pós-parto entre os Munduruku do Amazonas: confrontos e articulações entre o modelo médico hegemônico e as práticas indígenas de autoatenção”, um estudo de Raquel Dias-Scopel, Daniel Scopel e Esther Jean Langton. Desculpem, o título é longo, mas vou fazer uma breve apresentação do que se trata, para vocês entenderem.

O artigo é resultado dos 8 meses em que o casal Dias-Scopel passou convivendo com o povo Munduruku. O mais interessante, é que a Raquel ficou grávida nesse período, possibilitando que recolhesse muitas informações sobre a cultura deles em relação à gestação, parto e pós-parto.

Para comemorar o dia dos pais, decidi abrir uma discussão sobre qual é o papel dos pais na cultura Munduruku. Como é a participação dele durante a gestação, trabalho de parto e no pós-parto da mulher. E tentar, com isso, trazer a reflexão para os nossos costumes cosmopolitas. 

Os pais Munduruku na gestação

Para o povo Munduruku, não é apenas da mãe que o bebê tira seu alimento. Para que ele possa crescer e se desenvolver na barriga, ele “puxa” energias também do pai. Por isso, o pai também pode emagrecer, ficar mais fraco e mais cansado. As orientações dos mais velhos são para que o pai continue persistindo, alimentando-se com qualiade e continuando suas tarefas e obrigações. 

Além disso, ele deve seguir todas as recomendações alimentares e comportamentais da mãe para a proteção da vida do bebê e da família. 

Ou seja, se você pensa que quando a mulher engravida, ela tem que aguentar toda a carga sozinha, para o povo Munduruku, é quase como se o pai engravidasse junto. 

Os pais durante o parto

Quando a mulher começa a entrar em trabalho de parto e a sentir suas primeiras contrações, é costume que ela não avise imediatamente a ninguém, mantendo o ritmo de seus trabalhos cotidianos. Essa é uma prática orientada para diminuir o tempo do parto. Outra prática é fazer banhos terapêuticos, com o uso de ervas, durante toda a gestação. 

Quando o trabalho de parto começa a ficar desafiador para a mulher lidar sozinha, ela avisa o pai, e é aí que ele passa a ter participação ativa no trabalho de parto. “É ele quem chama as mulheres mais velhas da família extensa para partejar, auxilia a esposa a posicionar-se na hora da expulsivo e descarta os panos marcados com sangue, que são queimados ou enterrados”. 

Tirando a parte de queimar os panos com sangue, encontramos muitas semelhanças em cenas de parto em que o pai dá o apoio à parturiente durante todo o processo. Só que o povo Munduruku não precisou de ensaios clínicos randomizados para perceber que essa dinâmica funciona, é saudável e recomendada. Está inscrito no nosso DNA.

Os pais no pós-parto

Depois que a mãe já deu à luz, ela fica recolhida no quarto durante todo o tempo que durar o sangramento. Esse resguardo é essencial para a saúde da mãe e do bebê. Por isso, quem assume todas as tarefas domésticas é o pai. Ele cuida dos filhos mais velhos e realiza todas as atividades do universo feminino. Enfim, invertem-se os papéis.

É isso o que significa os pais “ajudarem” em casa, tendo participação ativa em todo o processo de gerar e criar filhos. É retirar a carga pesada da mãe e dividi-la em seus ombros.

Enfim, feliz dia dos pais a todos que, como os Munduruku, não “ajudam” sua mulheres, mas participam da vida doméstica e familiar em conjunto e equilíbrio. Desejo “coisa de índio” a vocês!